Nota preliminar
O que se vai ler a seguir não é propriamente a história do Rádio Clube de Pernambuco, mas notas sobre suas origens, fundação e primeiros tempos que no futuro poderão servir de subsídio para um historiador que tenha os dons de um bom escritor, contar devidamente a história dos pioneiros que deram a Pernambuco a primazia de ter o primeiro Rádio Clube fundado no Brasil e provavelmente na América do Sul.
As fontes de informação de que me servi foram, principalmente, documentos do arquivo de Augusto J. Pereira, o fundador da Rádio Clube de Pernambuco, documentos originais que asseguram autenticidade à estas notas. Ajudou também meu testemunho pessoal, já que estive intimamente ligado às atividades do Rádio Clube desde provavelmente 1921 até1929, quando me transferi para o Rio de Janeiro.
E foi com muita emoção que encontrei nesses documentos referencias aos companheiros do tempo da minha juventude e que já se foram. Também me comoveram as recordações dos primeiros tempos de funcionamento da estação transmissora do Rádio Clube, a SQIC, da qual fui operador técnico ou melhor dizendo, factótum, já que até, algumas vezes, quando da falta eventual do locutor, ocupava eu o microfone.
Quando da reorganização do Clube em 1923, fiz parte da Comissão Reorganizadora, conforme nota publicada no "Diário de Pernambuco", de 13 de outubro de 1923, tinha, então, 16 anos e era o benjamin do grupo.
Reorganizado o Rádio Clube, outros se apresentaram como fundadores ou pioneiros e com muita atuação na imprensa se firmaram nessa posição. Augusto J. Pereira era avesso à polemica mas numa ocasião, já residindo no Rio de Janeiro, para onde se transferira, esboçou uma reação escrevendo: "Não sei se deva classificar de amargura, decepção ou desilusão o sentimento que me causou a notícia publicada (...) e ficou nisso.
O radialista pernambucano Nelson Vaz, que atuou no Rádio Clube, no inicio das suas transmissões, visitou Augusto quando este já se transferira para o Rio de Janeiro e com muito entusiasmo, sugeriu levar seu arquivo a um jornalista para que fosse feito um trabalho jornalístico contando a história do Rádio Clube. Nelson sugeriu o jornalista pernambucano Nestor de Holanda que na época residia no Rio. Levou a pasta com os documentos do arquivo mas, no trajeto, a pasta foi perdida. Posteriormente recuperada foi levada ao seu destinatário.
Nestor que não chegou a iniciar seu trabalho, faleceu pouco depois. E Augusto também faleceu antes de recuperar o seu arquivo. Coube a Ewaldo Joaquim Pereira, filho de Augusto e sua esposa Maria Celeida Saldanha Pereira, pernambucanos, reaver da família do jornalista falecido, a pasta de documentos que daria a Ewaldo as informações necessárias para a realização do desejo de Nelson Vaz. Entretanto antes que isso acontecesse, Ewaldo faleceu.
Quando da minha viagem ao Recife em Setembro último, por solicitação dos pesquisadores da Fundação Joaquim Nabuco, prestei um depoimento oral sobre o Rádio Clube, arrancando da memória tudo que sobre o assunto me ocorria, dando meu testemunho pessoal dos fatos que presenciei ou dos quais participei há mais de meio século atrás. Nessa ocasião entreguei á Fundação um exemplar dos Estatutos do Rádio Clube datado de 1919 e cópias de uns poucos elementos de que dispunha.
De volta ao Rio, Celeida me informou ter encontrado a pasta de Augusto com os tão almejados documentos que tornaram possível a elaboração destas notas. A Celeida quero aqui agradecer sua valiosa e inestimável colaboração.
É extremamente gratificante a oportunidade que estou tendo de contribuir com estas notas para a restauração da verdade histórica sobre a fundação do Rádio Clube de Pernambuco e de trazer seu fundador ao podium dos pioneiros.
Rio de janeiro, abril de 1984
Oscar Dubeux Pinto
RÁDIO CLUBE DE PERNAMBUCO
Notas sobre sua história
Oscar Dubeux Pinto
Pouco se tem publicado sobre as origens do Rádio Clube de Pernambuco, mas há informações de que no inicio da Primeira Guerra mundial, já havia em Pernambuco amadores de radiotelegrafia que se intercomunicavam utilizando aparelhos construídos por eles próprios. Entretanto, o uso da radiotelegrafia era privativo do governo e a legislação sobre o assunto não permitia aos amadores sua pratica.
Sobre esse assunto, o jornal "A Província"de 20 de abril de 1915 publicava nota de autoria de Augusto Jose Pereira, na qual se sente a preocupação das "apprehensões de estações radiotelegráficas de amadores, comumente chamadas estações clandestinas"e mais adiante uma sugestão de associação: "Aqui em Pernambuco já se conta em mais de uma dezena o número de amadores, por isso, pensamos seria conveniente uma reunião, para, de acordo com os amadores de outros estados da União e depois da guerra, ser solicitada aos poderes competentes uma lei semelhante á inglesa ou americana (...)".
Outro documento, sem data, mas aparentemente da mesma época, mostra que já havia a idéia da formação de uma associação de radioamadores; o documento sugere o nome da associação e relaciona os amadores com seus respectivos indicativos de chamada.
Um documento que merece ser citado é uma nota-fiscal de uma firma de Nova York, "The Electro Importing Co.", com data de 2 de julho de 1915, nota nº 229105, endereçada a Augusto J. Pereira e referente a componentes para aparelhos de radiotelegrafia e instrumentos de física. Os amadores construíam seus próprios aparelhos mas os componentes essenciais eram, então, importados.
Durante a Primeira Guerra Mundial, quando os amadores não podiam usar seus aparelhos, a idéia da constituição de uma associação parece não ter progredido, e até mesmo depois da cessação da guerra, na falta de uma legislação especifica sobre o assunto, os amadores continuaram sem poder realizar comunicações ou o faziam com risco de serem detidos e ter seus aparelhos apreendidos.
Em 28 de março de 1919, Augusto Pereira escrevia a um radioamador que residia no Rio: "Acabo de ler no Correio da Manhã de 19 do corrente, a notícia de sua prisão por ter montado uma estação ou posto radiotelegraphico dos que a imprensa de nossa pátria, injustamente, classificada de CLANDESTINOS (...).
Agora que não havia mais guerra, os amadores, já em número maior, tratavam de se congregar numa associação que defendesse seus interesses, não somente no campo da radiotelegrafia, como também na radiotelefonia, ou seja a transmissão da voz e da música pelo rádio.
E no dia 6 de abril de 1919 foi fundado o Rádio Clube de Pernambuco.
O "Jornal de Recife", edição da tarde, de 7 de abril de 1919, assim noticia o acontecimento:
"RADIO CLUB - Consoante convocação anterior realizou-se hontem na Escola Superior de Eletricidade, a fundação do Radio Clube, sob os auspícios de uma plêiade de moços que se dedicam ao estudo da eletricidade e da telegrafia sem fio.
Ninguém desconhece a utilidade e proveito dessa agremiação, a primeira no gênero fundada no país.
Foram tomadas diversas medidas, como sejam, designações de comissões para se entenderem com as autoridades do Estado, etc.(...)"
A diretoria do Rádio Clube ficou assim constituída, o presidente por aclamação e os demais membros por eleição:
Presidente: Augusto J. Pereira
Secretário: Alexandre Braga
Thezoureiro: Arthur A. Coutinho
Orador: Carlos Rios
1º Suplente: Severino Mendonça
2º Suplente: Alfredo Watts
3º Suplente: Ismar P. Just
- Comissão para a impressa:
João H. P. Lyra, Carlos Rios, Arthur A. Coutinho.
- Comissão de relações com autoridades:
Augusto J. Pereira, Alexandre Braga, Abelardo R. Barros.
- Comissão para confeccionar o regimento interno:
Ismar P. Just, Severino Mendonça, Santos Crespo.
Também estiveram presentes a sessão de fundação Sylvio Chartron e Areas.
Não foi encontrado o texto da ata da sessão de fundação nem a relação das pessoas que a assinaram.
Há uma informação de Augusto Pereira, de que os documentos foram entregues ao Rádio Clube, após sua reorganização e que existia no clube um quadro com a relação dos seus fundadores.
Sobre os pioneiros, Augusto cita a nota publicada no jornal "A Província", em 1915, já mencionada, os nomes de Luiz Temporal, Macedo, George Gatis, e Chaplin.
Há referencias diversas a nomes que, se não foram fundadores, foram ligados ao clube desde seus primeiros tempos e que são os seguintes:
Alberto Soares, Alfredo da Costa Moreira, Conrado Montenegro,
Eduardo Brennand, Euclides de Carvalho, Luiz Carneiro de Souza,
Luiz de Carvalho, Luiz Medeiros, Manoel Roberto da Costa,
Ruber Van Der Linden, Sá Carneiro, Tito Xavier.
Após a sessão de fundação, foi endereçado ao Sr. Ministro da Viação, o seguinte telegrama: "Amadores telegraphia sem fio, hoje reunidos Escola Superior de Eletricidade, fundaram Radio Club fim propagar conhecimentos técnicos associados. Confiam vosso patriótico apoio. Saudações. ass. Augusto Pereira presidente."
Em resposta a esse telegrama foi recebida a seguinte carta, assinada pelo Sr. Feliciano de Souza Aguiar, auxiliar de Gabinete do Sr. Ministro da Viação:
"Exmo Sr. Augusto Pereira
Sua Ex. o Sr. Ministro da Viação tendo recebido vosso telegrama de 06 do corrente, participando a fundação do Rádio Club, incumbiu-me de escrever agradecendo a gentileza da comunicação e apresentar os sinceros votos de prosperidade.
S. Ex. pede a fineza de transmitir aos demais associados os mesmos votos. Cordiais Saudações."
Os estatutos do Rádio Clube foram aprovados em reunião de Assembléia Geral, realizada na Escola Superior de Eletricidade no dia 27 de abril de 1919.
Receberam "visto"do Sr. Chefe de Policia, Sr. Antonio Guimarães, na Central de Policia do Estado de Pernambuco em 12 de maio de 1919.
Na mesma reunião foi também aprovado o "Regulamento das Estações de Amadores".
Três meses após a fundação do Rádio Clube, surge nos Estados Unidos a pioneira revista "Radio Amateur News"que no seu segundo número, de agosto de 1919, na página 69, publica uma carta de Augusto J. Pereira comunicando a fundação do Rádio Clube e solicitando do editor cópia do texto da lei americana que permitia aos amadores usar seus aparelhos de radiotelegrafia, texto esse que serviria de subsidio para elaboração de uma lei semelhante que seria solicitada ao Congresso Nacional.
O "Regulamento das Estações de Amadores"já referido, era um documento interno e o funcionamento das estações dependia de legislação pertinente, somente conseguida anos mais tarde.
Ainda a revista "Rádio Amateurs News", volume 1, nº 3, de setembro de 1919, na página 126 , publica os textos de duas cartas de Augusto Pereira; uma apresentando o secretário do Rádio Clube Sr. Alexandre Braga, em viagem pelos Estados Unidos, ao presidente da "Radio League of América"e outra dirigida à "Radio League",solicitando facilidades para obtenção de informações de interesse de seus associados.
Fundado o Rádio Clube era agora necessário um local para sede da agremiação.
Na "Imprensa Oficial" do Estado de Pernambuco, de 12 de setembro de 1919, há um despacho do Sr. Dr. Governador do Estado: "Radio Clube, representado por seu presidente, solicitando a cessão de um pequeno pavilhão existente no Jardim Treze de Maio, para o referido Club - Sim, de acordo com os pareceres."
Mas era necessário fazer uma caução de 200$000.
E, ainda na "Imprensa Oficial" de 2 de outubro de 1919, há o seguinte despacho: "Augusto Joaquim Pereira, presidente do Radio Clube, pedindo dispensa da caução de 200$000 referente à cessão gratuita do pavilhão no Jardim Treze de Maio - Não pode ser atendido."
Foi, então, feita uma subscrição para a obtenção da quantia necessária, que se completou em 14 de novembro de 1919.
E outros foram se juntando ao club: Luiz C.do Souto, Cavendish, Raymond Gatis, Menandro, Caldas e Manoel Tinoco.
Tito Xavier que morava em Casa Amarela, era um amador muito destacado enfrentando a proibição legal, fez radiodifusão, irradiando musica, sem se identificar, utilizando um transmissor por ele mesmo construído.
Não foi encontrada qualquer informação referente à data em que isso aconteceu, infelizmente.
A falta de uma legislação que permitisse aos amadores operar suas estações foi um entrave ao desenvolvimento do clube. Muitos desses amadores se dedicaram a outros campos da ciência, assim Augusto Pereira tinha em sua residência muitos aparelhos de física, anos mais tarde a revista "Radio News", volume 6, nº 5, de Novembro de 1924, publicava uma foto de sua estação onde aparece uma maquina eletroestaica de WIMHURST, tubo de raios X (desde 1915), etc.
Luiz Temporal montava em sua residência, na Várzea, um posto meteorológico com termógrafo, pluviômetro etc., e fazia previsões meteorológicas com acerto...
Na época, para se ter um simples receptor de radio, era necessário requerer uma licença à Repartição Geral dos Telégrafos.
O pedido deveria ser acompanhado de atestado de idoneidade, e seu solicitante aguardava o tempo, muitas vezes longo, para que seu requerimento percorresse os lentos e tortuosos tramites burocráticos das repartições oficiais. E muito depois, em 1923, cinco anos apos o termino da Primeira Grande Guerra, ainda persistiam as restrições.
Augusto J. Pereira requereu licença para instalar um receptor de radio, atente-se bem, um simples receptor de radio; não se tratava de transmissor, para o que teve de fazer os seguintes ofícios:
1) Requerimento ao Sr. Chefe de Policia, solicitando um atestado de idoneidade;
2) Requerimento ao Sr. Ministro da Viação, solicitando licença para instalar um receptor de rádio, declarando o motivo dessa solicitação, juntando o esquema do aparelho e mais o atestado de idoneidade,
3)Requerimento ao Sr. Diretor Geral dos Telégrafos, pedindo encaminhamento ao Sr. Ministro da Viação, dos requerimentos acima referidos.
O requerimento que iniciou o processo, o que solicitava o atestado de idoneidade, está datado de 26 de junho de 1923. Em 15 de outubro os documentos eram devolvidos mas ainda faltava cumprir uma exigência: a declaração exigida pela Diretoria dos Telégrafos e constante do requerimento dirigido ao Sr. Ministro da Viação, que é a seguinte: Ö suplicante obriga-se a cumprir todas as instruções que sobre o assunto lhes sejam transmitidas por esse Ministério ou pela Repartição Geral dos Telégrafos."
Em meados de 1923, o Sr. João Cardoso Ayres Filho juntou-se aos fundadores do Rádio Clube, com o fim de reorganizar essa instituição, revitalizando-a, para consecução dos objetivos pretendidos.
Anos mais tarde Augusto escrevia:
"...até que como um enviado do céu, surge a figura de João Carlos Ayres Filho. Este de volta de uma de suas costumeiras viagens ao estrangeiro e tendo observado o valor e a utilidade patriótica da nossa associação, propôs-nos a sua reorganização, disposto a empregar o seu capital e de vários amigos influentes, na reorganização do Rádio Clube de Pernambuco, em bases que permitissem maior desenvolvimento."
Em 13 de outubro de 1923, o "Diário de Pernambuco"publicava na página 3, a seguinte nota:
"Rádio Clube de Pernambuco
Os Srs. João Cardoso Ayres Filho, Antonio Ramiro Costa, Augusto Pereira, Floriano Costa, Carlos Lacombe, Oscar M. Pinto, Carlos Lyra Filho, João Pereira de Lyra, Oscar Dubeux Pinto, Tito Xavier e Mario Pena, reorganizadores do Rádio Clube de Pernambuco, convidam todos os interessados e amadores da utilidade rádio-elétrica a se reunirem no salão do Diário de Pernambuco na próxima terça-feira, 16 do corrente, ás 20 horas, afim de reformarem a instituição que terá por fim vulgarizar e defender os interesses da radioeletricidade."
A sessão de reorganização do Rádio Clube de Pernambuco que foi iniciada sob a presidência do Sr. Augusto J. Pereira, realizou-se no dia 17 de outubro de 1923, no salão nobre do Diário de Pernambuco.
Na imprensa não foi encontrado registro dessa sessão, As notas do Diário de Pernambuco, foram pesquisadas na coleção desse jornal existente na Biblioteca Nacional, no Rio de Janeiro, mas faltam, na coleção, vários números, inclusive o de 18 de outubro que, é de supor, deveria conter uma nota sobre a sessão do dia 17. Há, entretanto, no número de 19 de outubro, a seguinte nota que parece uma noticia complementar:
"RÁDIO CLUBE DE PERNAMBUCO
Na sessão de reorganização do Rádio Clube de Pernambuco realizada anteontem às 20 horas no salão nobre do Diário de Pernambuco, foi feita com grande êxito uma demonstração prática da recepção radiotelefônica, tendo sido irradiado um concerto pela estação Rádio Clube e o seguinte discurso de saudação aos reinstaladores: "(aqui omitido).
De acordo com essas informações a primeira transmissão do Rádio Clube de Pernambuco foi feita a 17 de outubro de 1923, entretanto a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, fundada por Henrique Morize e Roquette Pinto em 20 de abril de 1923 iniciava suas transmissões em 7 de setembro do mesmo ano, um mês e dez dias antes de Pernambuco.
Sobre esse assunto tem havido polemica, talvez devido a falta de informações exatas. Uma publicação da Rádio Cinephon do Brasil informa que "em 17 de outubro de 1922 o Rádio Club foi reorganizado (...) tendo nesse dia feito sua primeira emissão com um pequeno transmissor de 10 watts (...)"
Há engano nessa informação; não foi em 1922 e sim 1923. Também em artigo de Salvyano Cavalcanti de Paiva, publicado no Correio da Manhã", do Rio de Janeiro de 13 de setembro de 1961, lê-se: Os primeiros ensaios brasileiros começaram com a Rádio Clube de Pernambuco, fundada com o propósito de fazer radiotelegrafia; isto em 6 de abril de 1919. Em 1922 reorganizada, essa emissora passou a radiodifusão com um transmissor de 10 watts (...). Novamente o mesmo engano; não foi em 1922 e sim 1923.
Há informações de que a partir da sessão de reorganização, o Rádio Clube de Pernambuco fez radiodifusão com um transmissor Westinghouse de 10 watts, segundo algumas fontes ou de 20 watts em outras, instalado na rua Aurora nº 1377. Entretanto é possível e muito provável que esse transmissor, funcionando em transmissões experimentais já estivesse em funcionamento bem antes da data acima referida.
Augusto Pereira possuía um pequeno transmissor de telefonia, de 5 watts, de sua construção, que se vê na fotografia publicada na revista "Rádio Amateurs News" de novembro de 1924, á pagina 680, já referida (anexo 12). Na legenda da fotografia há detalhes técnicos desse transmissor. Não foi possível encontrar a data que começou a funcionar. Funcionava sem licença porque não se concedia licença para transmissores. A fotografia é de sua estação-laboratório quando Augusto residia na Rua Conde da Boavista nº1126.
Tem-se dito que o Rádio Clube de Pernambuco foi fundado por um grupo de amadores de radiotelegrafia mais interessados em rádio como uma ciência do que sua aplicação para fins de radiodifusão, mas cabe lembrar que na época da sua fundação não existia nem se pensava em radiodifusão, e foi somente a 2 de novembro de 1920 que se inaugurou a primeira estação de radiodifusão nos Estados Unidos, a KDKA da Westinghouse, com um pequeno transmissor de 50 watts, instalado em East Pittsburg, Pennsylvania (Enciclopédia Britannica - Verbete: Broadcasting).
A radiodifusão nasceu, assim, no continente americano, 1 ano e 7 meses após a fundação do Rádio Clube de Pernambuco, que, no entanto, nos seus Estatutos, já incluía como fins de associação: "Vulgarizar a telegrafia sem fio e outras aplicações das ondas hertzianas, tais como telefonia sem fio (...)".
Na França, o termo "Radiodiffusion" somente começou a ser usado em 1925 (Dictionnaire Robert), ou seja; seis anos após a fundação do Rádio Clube de Pernambuco.
É de Pernambuco, indiscutivelmente, a primazia de ter a primeira sociedade de Rádio fundada no Brasil, que foi o Rádio Clube de Pernambuco.
A revista RADIO do Rio de Janeiro, fundada e dirigida pelo Sr. Roquette Pinto, um dos fundadores da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, informa no seu número 13, de 15 de abril de 1924: "RADIO circula, desde hoje, como órgão oficial do Rádio Clube de Pernambuco.
Em se tratando da mais antiga das sociedades de rádio do Brasil, é muito justo que a deliberação dos seus ilustres diretores nos encha de prazer. (...)"
Em 24 de abril de 1924, o pesquisador destas notas, em palestra proferida no Gabinete Português de Leitura, de Recife, assim se referia ao Rádio Clube: (...) Pernambuco, o Leão do Norte, tem a glória de ter fundado a primeira instituição desse gênero na América do Sul, a qual teve o nome de Rádio Clube de Pernambuco, e foi fundada no dia 6 de abril em 1919, graças a iniciativa de alguns amadores de tão útil ramificação da eletricidade, destacando-se entre eles Augusto Pereira."(RADIO nº 17, 15 de junho de 1924, página 24).
Já reorganizado, o Rádio Clube de Pernambuco adquiriu terreno à avenida Cruz Cabugá, 394, em Santo Amaro, construiu edifício para sua sede e instalações, onde foi montado um nosso emissor, cujas transmissões foram inauguradas no dia 8 de novembro de 1924 (RADIO nº 27, 15 de novembro de 1924).
Na solenidade dessa inauguração, o presidente do Rádio Clube, Sr. João Cardoso Ayres Filho pronunciou um discurso do qual seguem-se alguns trechos (RADIO, nº 31, 15 de janeiro de 1925).
Cabe-me na qualidade de presidente do Rádio Clube, entregar hoje a Pernambuco a sua estação de "broadcasting".
Um grupo de pernambucanos curiosos e inteligentes chefiados pelo nosso companheiro Augusto Pereira, fundou em 1919 o "Radio Clube de Pernambuco".
Somente então a radiotelegrafia era conhecida e anos depois é que a onda hertziana é aproveitada para a transmissão da Voz. O ano passado, em minha viagem à Republica Argentina, notei em Buenos aires um intenso movimento radiocultor, com antenas em toda parte, revistas,prospectos e uma quase mania pelo "broadcasting"(...).
Oito dias depois eu desembarcava em Santos com 14 pacotes e volumes de pertences radiotelefônicos e triste de ver que, no Brasil, quase ninguém conhecia da minha "moléstia". E Trouxe para Recife, a bagagem, a "doença"e o "veneno". Mas já encontrei aqui alguns "malucos envenenadissimos" como o Augusto Pereira, o Floriano Costa, Os Gatis, o Oscar Pinto, o Tito, o Oscar Dubeux e tantos outros. Enfim era um ambiente fertilíssimo para a bendita moléstia (...)".
O novo emissor do Rádio Clube, de 300 watts, era do fabricante francês LUCIEN LEVY e foi instalado pelo Sr. Floriano Costa. O prefixo dessa estação era SQIC. No início do seu funcionamento foi operado pelos Srs. Floriano e Dantas. Posteriormente, foi se operador Oscar Dubeux Pinto e locutores Octavio Saraiva e Mário Libanio.
Esta estação funcionou até quando foi substituída por outra de fabricação Telefunken, com 1 kw, inaugurada em 04 de maio de 1931. Em 1932 foi adicionado a esse transmissor um estágio de potencia fornecendo à antena uma energia de 3,8 kw. De 1932 a 1935 fez transmissões a titulo precário, experimental, em ondas curtas na freqüência de 6020 khz.
Em 7 de fevereiro de 1937 o Rádio Clube de Pernambuco, transformou-se em sociedade anônima, sob a denominação de Rádio Clube de Pernambuco S/A., tendo como presidente o Sr. Othon Lynch Bezerra de Melo.
Em 17 de fevereiro de 1937 o Rádio Clube de Pernambuco inaugurou dois novos transmissores fabricados pela Rádio Cinephon Brasileira; o de ondas médias com 25 kw, operando a freqüência de 720 khz; e o de ondas curtas, de 5 kw na freqüência de 6010 khz. (informação da Rádio Cinephon Brasileira)
Na segunda fase de sua existência, teve o Rádio Clube como presidente os Srs. João Cardoso Ayres Filho, Mário Martins, Antonio de Góes Cavalcanti, Renato Barroso e outros. Nessa segunda fase que teve inicio em 1923, ou seja quatro anos após sua fundação, o Sr. Oscar Moreira Pinto teve marcante atuação na diretoria do Clube, tendo sido diretor da Secretaria, secretário, secretário de honra, diretor geral e tesoureiro. Era esforçado, dedicado e persistente, embora de temperamento difícil e de relacionamento nem sempre harmônico com seus colegas. (Jornal pequeno, 28 de setembro de 1933)
Quando residia no Rio de Janeiro, era radiotelegrafista e escrevia na imprensa e revistas especializadas sobre, principalmente, legislação das comunicações radiotelegráficas. Transferindo-se para Recife em agosto de 1923, continuou atuando na imprensa e já em Recife, nesse ano, publicou um opúsculo onde reuniu esses artigos e outras notas sobre o mesmo assunto, intitulado: Crônicas Radioelétricas.
Possivelmente, devido à sua atuante presença na vida do Rádio Clube e também à sua freqüente colaboração na imprensa, em assuntos de rádio, era tido como o fundador do Rádio Clube de Pernambuco.
A Câmara Municipal do Recife deu à uma rua próxima à sede do Rádio Clube, o nome Oscar Pinto, com a justificativa de ter sido ele o fundador do Rádio Clube de Pernambuco. (Folha da Manhã, 17 de janeiro de 1948)
A Enciclopédia Mirador, no verbete: Radiodifusão, informa: "Em 17 de outubro de 1923 inaugurou-se oficialmente a Radiocultura em Pernambuco nascida de uma sociedade fundada em 06 de abril de 1919 por Oscar Moreira Pinto e outros (...), A Rádio Sociedade constrói em 1948 o Palácio do Rádio Oscar Moreira Pinto em homenagem ao seu fundador (...)"
O Almanaque Abril-1982, da Editora Abril, na página 461, informa: Em 1923 Oscar Moreira Pinto funda a Rádio Cultura de Pernambuco.
Todas essas informações que indicam o Sr. Oscar Moreira Pinto como fundador do Radio Clube de Pernambuco não tem qualquer fundamento; são inverídicas.
Em 1923 não se fundou a Rádio Cultura de Pernambuco ou qualquer outra sociedade do gênero, em Pernambuco.
O acontecimento marcante em 1923, foi a reorganização do Rádio Clube de Pernambuco em sessão que se iniciou sob a presidência de Augusto J. Pereira, o fundador do Rádio Clube, como já referido.
A verdade histórica sobre a fundação do Rádio Clube de Pernambuco está fartamente documentada nestas notas.
Nas fontes pesquisadas não foi encontrada qualquer informação de que o Sr. Oscar Moreira Pinto tivesse mencionado ser ele o fundador do Rádio Clube.
Na revista RADIO nº 2, de 15 de outubro de 1924, em artigo sobre a história do Rádio no Recife, de sua autoria, então secretário do Rádio Clube, consta:
"... em 6 de Abril de 1919 um pequeno grupo de apaixonados amigos do progresso fundou nesta cidade do Recife o "Radio Club de Pernambuco" que se propunha (...) vulgarizar a radiotelegrafia e outras aplicações das ondas eletromagnéticas.
Nessa época, entre nós, ainda era quase que desconhecida a maravilhosa ciência aplicada com suas varias modalidades, de forma que as dificuldades que se opuseram aos treze jovens fundadores do Radio Clube, chefiados por Augusto Joaquim Pereira (...)."
Na mesma fonte, o Sr. Oscar Moreira Pinto, que anteriormente residia no Rio de Janeiro, escreve: "Chegando ao Recife a 4 de agosto de 1923 e ignorando a existência do Radio Clube de Pernambuco, trazia a idéia de fundar uma instituição congênere à Rádio Sociedade do Rio de Janeiro (...)".
Tais declarações do próprio Sr. Oscar Moreira Pinto, feitas espontaneamente e de modo tão claro, corroboram a suposição de que muitos o tinham como o fundador do Radio Clube pelas razoes já referidas, sem que tivesse partido dele tal insinuação.
Dr. Mario Melo, que já havia sido presidente do Radio Clube, publicou no "Jornal Pequeno" de 22-set-1933 a seguinte nota:
"Estendendo a mão à palmatória
Mario Melo.
A minha palavra não seria digna do conceito que desfruta - mercê de Deus - tanto aqui como alem fronteiras, se, reconhecendo-me em erro, não tivesse eu o desassombro de confessá-lo e corrigir-me.
Estava plenamente convencido de que me cabia o direito de um dos sócios fundadores do Radio Club de Pernambuco. Quando há dez anos passados se fez uma reunião num dos salões do Diário de Pernambuco com o fito de fundar-se uma sociedade para o progresso da Radiotelefonia, compareci a convite do meu amigo e condiscípulo João Cardoso Ayres Filho, que era o maior entusiasta do assunto. Assinei o livro de presença e dei meu apoio à idéia.
Estava, porem, alheio, até então, ao movimento radiotelefônico, mesmo não possuía ainda receptor de radio, tanto assim que, indo tempo depois à sede da sociedade deixei no livro de visitas a seguinte impressão, agora tornada pública para gáudio meu do que é prova a sua transcrição, quando julgavam ferir-me com a publicidade:
"Assisti a instalação do Rádio Clube no Diário de Pernambuco com a desconfiança de que tivesse o destino de outras coisas úteis: o enfraquecimento, a queda, o desaparecimento. Grande é a minha alegria vendo hoje que resistiu ao indiferentismo e progride. Maior ainda por me haver proporcionado momentos agradáveis, de recordação de minha juventude, com a irradiação que fiz de alguns números de musica, tocados na "gaita" que tanto alegrou a minha geração dos saudosos tempos da Faculdade de Direito."
Foi daí, que João Cardoso, verdadeiramente fanatizado com o radio em favor do qual havia investido vultoso capital, reconhecendo o meu temperamento, e o meu entusiasmo, me presenteou com dois receptores, um para ondas largas e um para ondas curtas, afim de que também eu ficasse contaminado pelo micróbio e desenvolvesse forte propaganda pela imprensa.
Veja-se que registrei no livro de visitas, e registrei bem, que "assisti a instalação do Radio Clube, no Diário de Pernambuco."
Estava na plena convicção de que o Radio Clube se instalara naquela noite de reunião no Diário de Pernambuco, como também a minha presença e o meu apoio motivo por que sempre me considerei um dos sócios fundadores, embora as minhas mensalidades só começassem a ser cobradas depois que foram levantadas as antenas em minha casa.
Agora, porém, um veterano radiófilo me fez presente de esplêndida documentação, pela qual se verifica que o Radio Clube de Pernambuco não foi instalado na reunião do Diário de Pernambuco, a que me aludo acima, porem numa assembléia realizada na Escola Superior de Eletricidade, então existente, no dia 6 de abril de 1919.
Dessa documentação faz parte um exemplar dos Estatutos, com o visto da Polícia, de 12 de maio de 1919, assinado pelo então chefe desembargador Antônio Guimarães. Esses Estatutos foram impressos na Imprensa Industrial, no mesmo ano, e constam de 10 páginas, sendo a seguinte a diretoria do Radio Clube: Augusto Joaquim Pereira, presidente; Alexandre Braga, secretario; Arthur de Azevedo Coutinho, tesoureiro e Carlos Rios, orador. As sessões preliminares segundo m'o declarou um dos remanescentes dessa diretoria, realizaram-se numa casa modesta, à Rua da Mangueira.
Dessa documentação faz parte, também, outro papel de importância, porque com assinaturas autógrafas. Uma vez fundado o Radio Clube, publicados os Estatutos, pretenderam seus dirigentes montar um posto transmissor no pavilhão do jardim Treze de Maio.
Era preciso o deposito, no Tesouro do Estado, duma caução de 200$000, para garantia do contrato. Subscreveram por quotas, essa importância: Augusto Joaquim Pereira, Euclides de Carvalho, Arthur Coutinho, Ed. Brennand, Luiz Carneiro de Sousa, Conrado Montenegro, Carlos Rios, Alberto Soares, S. Mendonça, Alfredo da Costa Moreira, Manoel Roberto da Costa e Luiz Medeiros. Este último pagou no dia 14 de novembro de 1919.
Ora, essa reunião realizada no edifício do Diário de Pernambuco, foi a 17 de outubro de 1923. Entretanto quatro anos antes (1919) já o Radio Clube, com Estatutos publicados, fazia uma caução ao Tesouro do Estado, para instalar a sua sede no Jardim Treze de Maio.
As pessoas referidas acima é que podem vangloriar-se da prioridade da idéia e da realização de uma sociedade de rádio em Pernambuco. Somente elas!
Diante do exposto, não posso mais considerar-me um dos sócios fundadores do Radio Clube. Nem eu nem os outros, alguns dos quais residiam fora de Pernambuco em 1919, e que tanto se jactam dessa prioridade, pretendendo até monopolizá-la...."
Em março de 1945, Augusto, residindo no Rio, escreveu ao seu velho amigo Mário Martins, então presidente do Radio Clube de Pernambuco, lembrando de que no dia 6 de abril daquele ano, o Radio Club estaria completando 26 anos de fundação.
Mário Martins respondeu com a seguinte carta:
Recife, 11 de abril de 1945.
Amigo Augusto,
A 6 do corrente eu e o Arnaldo lhe telegrafamos para escutar aí o programa que a nossa Rádio Clube de Pernambuco lançou no ar em dois horários: um das 11:30 às 12:00 e outro das 21:30 às 22:00, em homenagem muito justa aos pioneiros da radiodifusão, comemorando o 26º aniversário de fundação da Sociedade Rádio Clube de Pernambuco, que um grupo de fervorosos adeptos da radiodifusão organizou a 6 de abril de 1919, na Escola Superior de Eletricidade, situada em Ponte D'Uchoa.
Como vê não caiu em "cesta rota" a sua sugestão constante da carta que me dirigiu em 10 de março último.
Aliás, em trabalho que há pouco fiz para um livro que o DIP vai imprimir sobre a radiodifusão no Brasil, focalizei a data de 6 de abril de 1919 como da fundação da Sociedade Rádio Clube de Pernambuco, posteriormente reorganizada a 17 de outubro de 1923. Tivemos assim a mesma idéia de não perder de vista aquela data, que importa na reivindicação para Pernambuco de "Pioneiro da Radiodifusão no Brasil" e mesmo na América do Sul.
Penso ter assim satisfeito o seu justo desejo de não querer no olvido o acontecimento que deu azo a podermos dizer com orgulho: "Daqui partiu a voz do Brasil para o mundo."
O seu nome não pode jamais ser esquecido, quando se tratar da radiofusão no Brasil, porquanto bem me lembro de todo o seu trabalho pela divulgação dessa ciência entre nós, quando ainda em embrião, dedicado como você era, dando o melhor de seu tempo e de sua atividade. Usei mesmo de algumas de suas frases na moldura do nosso programa, (...), tanto essas frases nos (...)
Receba um abraço e disponha sempre do velho amigo que aqui, põe ao seu dispor os seus limitados préstimos.
Mário Martins"
Uma pequena história da fundação do Rádio Clube de Pernambuco, escrita pelo seu fundador, no ocaso da sua vida, esquecido, magoado, amargurado, foi encontrada nos seus documentos e aqui transcrita:
"No interesse da verdade histórica e para que não se perpetuem afirmativas errôneas, tendenciosas, algumas mesmo de interesse pessoal vaidoso, esclareço:
O Rádio Clube de Pernambuco foi a primeira entidade de radiocultura fundada no Brasil, quiçá na América do Sul. Fundado em 6 de abril de 1919, na Escola Superior de Eletricidade, do Recife. Devo dizer que as minhas atividades nessa ciência vinha de longe, podendo afirmar que antes de 1910. Havia uma mentalidade contrária a nossa "mania". Éramos perseguidos, os nossos aparelhos apreendidos pela polícia, etc., porque dizia-se tratar-se de "clandestinos" no setor de comunicações radioelétricas.
Essas perseguições, segundo corria entre nós, originava-se, principalmente da Cia Marconi, o que não posso afirmar.
Leitor constante de revistas científicas americanas e francesas, imaginei ser possível adotar no Brasil a conduta americana na organização de Rádio Clubs semelhantes aos que pululavam nos Estados Unidos.
Reuni os maníacos, discutimos sobre o assunto e resolvemos fundar a nossa própria associação, para nos livrarmos das perseguições das companhias privadas e do próprio governo.
Não sei porque sentia-me seguro do êxito. Não iríamos ter mais os nossos aparelhos apreendidos. Acreditava poder convence-los que os "maníacos"nada mais desejavam que liberdade relativa para seu "hobby" e que os nossos aparelhos transmissores e receptores "home-made", seriam respeitados. E foi assim que em 6 de abril de 1919 como acima disse, concretizou-se a minha idéia. Foram anos de luta; a única renda do Clube era proveniente da mensalidade dos sócios.
Voltando a fundação: - A primeira reunião, como disse, foi um sucesso. Não tive mais duvidas de que iríamos conseguir o fim desejado. Eleita a primeira diretoria, fui aclamado presidente e escolhido por votação os demais membros, conforme consta dos Estatutos impressos, em meu poder. Foi proposto comunicar, por ofício ou telegrama, às principais autoridades federais e estaduais, a fundação do Rádio Clube de Pernambuco o que fiz no dia seguinte, conjuntamente com o secretário, endereçando ao Sr. Presidente da República, Ministro da Viação, Ministro da Guerra, Ministro da Marinha, Comandante da Escola de Aprendizes Marinheiros, do Recife, Governador do Estado, Prefeito do Recife, Chefe de Polícia, Administrador dos Correios e Telégrafos (que ousadia!).
Todos responderam desejando prosperidades e agradecendo. Agora, era ir para diante, com desassombro, com mais calor na nossa atividade. Seria enfadonho citar todas as peripécias que vez em quando surgiam e que com habilidade e bom senso afastávamos. Afoitamente, usávamos os nossos transmissores e receptores de telegrafia e telefonia "home-made"e, aos poucos impondo-nos à boa amizade dos profissionais, oferecíamos para escuta aparelhos feitos por nós, melhores e mais eficientes do que os existentes nas estações de T.S.F., já obsoletos, e, assim eles iam "esquecendo" a nossa "clandestinidade". Convém esclarecer não ter iniciado a "mania"em 1919. Antes de 1910 eu já mexia com o éter. Nesse tempo nunca encontrei aqui no Rio ou em São Paulo, quando para estas bandas vinha em gozo de férias, amadores ou atacados pelo "micróbio do rádio".
Diziam-me constar haver em São Paulo um "doente" da família Penteado e acrescentaram: Isso só há lá pelo norte; Recife, Natal, Paraíba.
Foi com a montagem dos transmissores de broadcasting da Westinghouse e da W.E., durante a exposição do Centenário, que se verificou o verdadeiro interesse pelo rádio.
No Norte, entre os maníacos adiantados contava eu com as boas relações do deputado Jader de Andrade. Aproveitei sua posição, traduzi a lei americana sobre atividades dos amadores e mandei-lhe uma cópia para que tomasse por base para uma lei brasileira. O Dr. Jader respondeu-me que conjuntamente com o Dr. Roquette Pinto, iriam propor, ou apresentar um projeto de lei mais ou menos liberal como a americana.
Essa resposta incluí nos vários documentos sobre a fundação do Rádio Clube que deixei com Oscar Moreira Pinto, quando após a reorganização do Rádio Clube de Pernambuco ausentei-me do Recife para vir e ficar no Rio.
Para não tornar mais longa esta minha "lenga-lenga", vou terminar, mas cumprindo um dever de justiça, quero afirmar categoricamente, que só foi possível dar maior, ou antes, o necessário impulso ao Rádio Clube de Pernambuco, depois que a ele se associou o saudoso amigo João Cardoso Ayres Filho, grande industrial e usineiro, que com o seu prestígio entre os açucareiros e agricultores, etc, conseguiu que cooperassem com suas quotas para o aumento do Capital do Clube e assim possibilitou a compra do terreno, a construção do edifício-sede, aquisição do transmissor francês, etc.
Este sim, nunca desejou destruir a organização, nunca desejou ser "pioneiro"mas deu grande impulso em suas funções e sempre reconheceu em mim o verdadeiro iniciador da radioeletricidade no Recife.
Pessoalmente, nada me move contra o Oscar Moreira Pinto. Não concordo, não poderia concordar de maneira nenhuma, com a mania que ele tinha de querer ser "pioneiro". Não sei se ainda se encontram no Rádio Clube de Pernambuco os documentos que a ele entreguei, comprovando a iniciativa pernambucana no setor da radiocultura.
Felizmente, para fidelidade histórica, ainda se encontram em meu poder vasta coleção de revistas, recortes de jornais, etc., comprovantes que estão ao dispor de quem os queira consultar. Afirmo: O Rádio Clube de Pernambuco foi a primeira associação de radiocultura fundada e ainda existente no Brasil, quiçá na América do Sul.
Augusto J. Pereira".